27 janeiro, 2008

Cântico negro

Um belo poema que em tempos me disse mais do que me diz hoje, mas contudo não deixo de o partilhar porque por vezes existem situações na vida em que temos de fazer escolhas, alturas em que a duvida é uma constante, mas sem ela qual era a piada da vida?
Aqui fica o "Cântico negro".


Cântico negro


"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!


José Régio

6 comentários:

  1. Esse poema é dos mais fenomenais que conheço. Parabéns pela escolha *

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  2. Obrigado pelo feedback, é sempre um gosto conhercer pessoas com bons gostos e simpatia.
    A sucata de letras terá sempre as portas abertas para pessoas assim.

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  3. Estudei este poema numa aula de português e não lhe dei muita importância, mas creio vê-lo hoje duma perspectiva diferente...


    Hoje não sei por onde vou, mas não vou por aí...


    Um beijo

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  4. Ah...

    O STK tem um sample desse poema numa música. O que eu procurei por ele. A quanto tempo conheces isso? Podias ter dito alguma coisa.

    Esquece lá isso, fico contente pelo facto de o ter lido.

    Be back soon.

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  5. Amigo, este poema ja tem uns anitos valentes, digamos k eu conheço isto á menos de um ano, uma descoberta intereçante partilhado na epoca.
    E sim o STK tem este sample k salvo erro parece ser declamado pelo Ary Dos Santos, mas n tenho a certza.

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  6. Sócio.. tas em alta.. José Régio.. mt mt mt bom.. adoro o poema e o poeta.. este senhor faz parte dos meus favoritos..

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